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Associação Brasileira de Criadores de Ile de France - ABCIF
  Ile de France no Brasil
 

A raça ovina Ile de France no Brasil

Med. Vet. João Carlos Giudice
Cabanha Branca
Quaraí - RS

"Muito provavelmente, o Dishley-Merino será de grande proveito para nós, não somente conservado puro, mas também como regenerador da chamada ovelha crioula."
Dr. Joaquim Francisco de Assis Brasil

Assim se expressou este eminente pecuarista no início do século passado, antevendo com sua mente privilegiada o futuro da raça Ile de France no Rio Grande do Sul e no Brasil.

Os animais por ele adquiridos, conforme Fortunato Pimentel, teriam vindo do plantel da Escola de Frignon na França, para onde em 1879 foi deslocado o rebanho formado pelo Professor Auguste Yvan en Alfort. Provavelmente em razão do longo período em que foi chamada na França de raça de Frignon e Dishley-Merino, fez com que Assis Brasil a ela se referisse por este último nome.

Não ficaram registrados nos diários de Pedras Altas (nome da propriedade de Assis Brasil), os resultados obtidos com a utilização deste animais, que desapareceram sem deixar vestígios no criatório rio-grandense, a não ser que da última borrega foi feito um churrasco.

Os franceses informam que as primeiras exportações para a América do Sul verificaram-se em 1924, quando a raça e Flock Book denominavam-se já oficialmente Ile de France. Não se tem notícias dos animais destas exportações.

Importações de raças ovinas de carne ocorreram provavelmente no Brasil a partir da década de 30, sendo comum na Fronteira Oeste gaúcha, pelos idos de 1930 a 1945, a presença de ovinos cruzados com Hampshire Down, Suffolk e South Down. Devido à ocorrência de fibras pretas no velo destes animais e sua baixa produção laneira, aos poucos foram sendo abandonados pelos criadores rio-grandenses, temerosos, e com muita razão, que estes defeitos pudessem prejudicar irremediavelmente a qualidade da lã produzida por seus rebanhos. Por outro lado, o baixo valor de mercado e o limitado consumo de carne ovina à época não justificava o risco ou o prejuízo em termos laneiros. Este também era o pensamento dos técnicos de então, entre os quais o nosso saudoso Geraldo Velloso Nunes Vieira. Pouco a pouco, sob tão justificadas pressões, o ovino carne praticamente desapareceu do Rio Grande do Sul.

Assim, sem conhecermos a existência da raça Ile de France, vendo com desconfiança o ovino carne, fomos, pela primeira vez, à Europa, em 1959. Nosso objetivo era o Charolês, tendo por isso passado alguns dias na Cabanha do Conde Bernard de Dreuille, em Cressange no Allier. Qual a nossa surpresa!! Junto ao gado branco, um rebanho de ovelhas que pesavam em média 70 kg, produziam 4 kg de lã absolutamente branca, sem fibras pretas, semelhante à da Ideal em finura. Borregos de 130 a 140 kg, dotados de uma vitalidade que nunca havíamos visto em ovinos, com carcaças de conformação carniceira primorosa.

Voltamos impressionados. Em outras viagens na década de 60 conhecemos mais detalhes da raça, tendo falado a diversos colegas e amigos, entre os quais Décio e Jacques César, de Vacaria. Destas conversas surgiu a primeira importação de Ile de France, em 1973, concretizada por Décio Jacques Cesar, proprietário da Cabanha Cesar. Logo após, no ano de 1974, em viagem para compra de Charolês, fomos acompanhados dos inesquecíveis amigos e criadores Umberto Campetti, e Achylles Jacques Fernandes, e por Argeu Silva, gerente do criador Vitório Poletto, de Caçador, Santa Catarina. Levando-os à casa do meu amigo de Dreuille para ver as ovelhas, estava feita a segunda introdução de Ile de France, novamente para Vacaria, mas também para Lagoa Vermelha, RS e Caçador, SC.

O primeiro animal Ile de France inscrito no Registro Genealógico de Ovinos do Brasil, por intermédio da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), foi o de tatuagem 2041, macho, nascido em 5 de março de 1972, de criação do Conde Bernard de Dreuille e de propriedade do criador Décio Jacques César, de Vacaria. O registro foi efetuado em maio de 1974.

Enfrentamos, então, um longo período, onde por razões ditas sanitárias não pudemos enriquecer nosso criatório com mais reprodutores franceses, até que em 1979 se reiniciaram as importações.

A nova raça introduzida no Brasil chamou logo a atenção de técnicos, criadores gaúchos e de outros estados, pelo seu desenvolvimento, peso, prolificidade e produção de lã. Rapidamente difundiu-se pelo Rio Grande do Sul, atingindo as fronteiras com a Argentina e Uruguai, região onde se localiza o maior efetivo brasileiro.

Pressionados pelo mercado crescente para uma raça que correspondia em qualidade e performances zootécnicas, reuniram-se os criadores em 6 de setembro de 1981, fundando a Associação Brasileira de Criadores de Ile de France, entidade promocional, cujo estatuto foi publicado no Diário Oficial em 16 de junho de 1982, da qual fomos o primeiro presidente.

Em 1982, iniciou o professor Pedro Genro Surreaux, da Faculdade de Zootecnia de Uruguaiana, trabalho envolvendo cruzamentos, visando à formação de uma raça mista, a partir de machos Ile de France e fêmeas Corriedale, bem como um bi-mestiço 5/8 Ile de France e 3/8 Corriedale. Até 1985, acompanhei o trabalho e seus ótimos resultados. Não sabemos o destino final destes cruzamentos.

Crescendo em número e prestígio, a raça alcançou o Uruguai, pela Exposição do Prado, em 1988, quando sagrou-se "Gran Campeón" da raça o produto de nossa Cabanha Branca, de Quaraí, Saladeiro St Fournier 145. Logo após instalou-se em território uruguaio, com seus Ile de France, a Cabanha Cerro Coroado, de Armando Garcia de Garcia. Dificuldades, aparentemente ligadas a problemas sanitários, impediam desde então novas introduções na banda oriental. No ano de 1999, em setembro, novamente um grupo de criadores - Vilson Ferreto, Mariano Muñoz Oliveira, João Carlos Giudice e João Manoel de Oliveira - apresentaram animais no Prado, em Montevidéu, com sucesso indiscutível, assessorados pelo escritório Dutra Hermanos. Foi Grande Campeão da raça um borrego da Cabanha Cordilheira, de Vilson Ferreto.
Consideramos a raça Ile de France uma das melhores no que diz respeito à produção de carne, somando a esta virtude a produção de lã branca de boa finura. Com sua origem merina, é a única raça realmente mista (com destaque para a carne), e precoce em termos de ciclo estral, começando a ciclar naturalmente a partir de setembro e outubro em nosso meio. Por outro lado, e como veterinário dedicado à fisiopatologia da reprodução, podemos afirmar: sua resposta aos estímulos hormonais visando a partos precoces, sincronização de cios (também visando a três partos em dois anos) super-ovulações (objetivando partos múltiplos ou transplantes embrionários), é bem superior à das demais raças de carne atualmente utilizadas no Brasil.

Os resultados que se obtém em raça pura, ovelhas com mais de 70 kg, cordeiros com 35 kg aos três meses, com ótima conformação carniceira e carneiros pesando mais de 160 kg, são freqüentemente alcançados.

As performances obtidas tanto nos cruzamentos por absorção como nos industriais são excelentes e incomparáveis, pela soma e potencialização das virtudes acima expostas. A prova disto virá no momento em que o mercado de cordeiros gordos intensivamente criados, pesando 30 kg aos 90 dias, for finalmente franco e de preço conveniente em nosso meio. A hora está chegando. A fome de proteínas do brasileiro e do mundo não tem limites e produzir carne vermelha em grande escala com ovelhas é mais rápido e econômico do que com outras espécies. Já alcançarão as populações famintas o poder aquisitivo necessário à compra deste alimento nobre. Neste momento, a Ile de France será indispensável no mecanismo de aumento de produção e carne econômica da melhor qualidade.